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© Lúcia Antunes
Artigo
Publicado em 15/3/2013 por Cláudia Azevedo

Lúcia Antunes tem uma paixão por morcegos. Fez deles a sua tese de mestrado em ilustração científica, área em que se sente com asas para voar mais alto. Se pudesse, era ilustradora a tempo inteiro, mas o seu país ainda não deixou, pelo que vai completando o rendimento ao fim do mês como designer freelancer. Esta jovem nascida em 1985 abriu o livro ao Ciência 2.0, em cuja exposição participou com duas obras: Morcego-de-ferradura-pequeno (Rhinolophus hipossideros) e Tecelão de Cabeça Preta (Ploceus melanocephalus).

Quando percebeu que tinha jeito para a ilustração?

Desde sempre gostei muito de desenhar. Na primária, era a miúda que estava sempre a fazer bonecos. Sempre me disseram para seguir essa área. Foi isso que me levou a ter uma formação artística, na Escola Secundária António Arroio. Na altura de ir para a Faculdade, tive muitas dúvidas. Acabei por seguir Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Foi aí que tomei contacto, pela primeira vez, com a ilustração científica, com o Professor Pedro Salgado, mas não cheguei a fazer formação. Quando acabei a Faculdade e comecei a trabalhar numa agência, senti muita falta de desenhar.

Passado cerca de um ano, surgiu um workshop de três meses em ilustração científica na Faculdade de Belas Artes, com o Professor Pedro Salgado. Eu disse: é agora! Foi aí que fiquei com o bichinho. Depois fiz um curso livre, de um ano letivo, no Instituto de Artes e Ofícios (IAO), na Universidade Autónoma, novamente com o Professor Pedro Salgado. A partir daí, decidi que era o que queria fazer da minha vida.

Quais os temas que começou a ilustrar?

Comecei sobretudo pela flora, alguns rebentos, uma casca de noz, isto é, objetos pequeninos e pouco intimidadores. No IAO, explorei vários ramos da flora e da fauna. Quando acabei o curso no IAO, surgiu o Mestrado de Ilustração Científica no Instituto Superior de Educação e Ciências, ministrado também pelo Professor Pedro Salgado e único em Portugal. A formação nesta área é muito escassa.

“Na fotografia, existe muito ruído”

Porquê fazer tese sobre morcegos?

Foi uma área que comecei a trabalhar no início do mestrado. Havia uma técnica que tínhamos de explorar que é mais adequada a animais com pelos. Na altura, quando estava a fazer pesquisa, deparei-me com desenhos de morcegos, que são muito peludos e fora do comum. Comecei com um morcego-de-ferradura-pequeno, Rhinolophus hipossideros.

Achei interessante precisamente por não haver muita informação e por não haver muitos desenhos de morcegos. Existem fotografias, mas as fotografias não são propriamente o modo ideal de fazer uma boa representação de um animal. Existe muito ruído.

Em Portugal, temos 27 espécies de morcegos, mas algumas não se distinguem morfologicamente. O meu trabalho de ilustração tem 24.

A exposição “Morcegos de Portugal”, a convite da Universidade de Évora e feita em conjunto com o ICM, deriva do projeto “Guia de Morcegos de Portugal”. O Professor Jorge Palmeirim, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um especialista em morcegos, fará os textos em conjunto com outras pessoas, para um livro.

Os painéis vão fazer parte do acervo da Universidade de Évora, mas a ideia é levar esta exposição a outros locais.

“O processo de pesquisa é vital e muito exaustivo”

Quanto tempo demora a fazer cada ilustração?

Depende das ilustrações. As ilustrações principais que compõem o Guia, as cabeças dos morcegos, onde está a maior parte das características que os identificam, demoraram cerca de 12 horas a realizar. É claro que o processo antes da arte final demorou tanto ou mais. O processo de pesquisa, que antecede o desenho, é vital e muito exaustivo. O Centro de Investigação da Regaleira, em Sintra, que tem um morcegário, uma espécie de observatório de morcegos, designadamente para estudo de maternidades, é aquele com que tenho maior proximidade.

Mas não conseguimos observar todos os morcegos vivos. Trabalhamos muito com espécimes conservadas em álcool e com chaves de identificação, referências fotográficas de pormenores, como as orelhas ou o focinho. Em conjunto com exemplares que eu consegui observar e fotografias que eu própria realizei, constrói-se uma ilustração.

Foi indispensável trabalhar com um especialista, no caso o Professor Jorge Palmerim, porque, não havendo um conhecimento profundo da biologia do animal, é fácil cometer erros.

O que é que a ilustração científica tem de tão mágico?

Tem uma vantagem enorme em relação à fotografia e a outras formas de representação. Desde logo, quando estamos a desenhar um animal, não estamos a representar um morcego em especial, mas o conjunto de morcegos, que reúne todas as características gerais. Quando eu desenhei um morcego-de-ferradura-pequeno, não desenhei um em particular, mas todos os que existem. A ilustração tem o potencial de representar um animal e sequências, como, por exemplo, uma lagarta que passa a borboleta. Em fotografia, não se consegue congelar os momentos de uma forma explicativa e didática.

“Em Portugal, é muito raro haver ilustradores científicos residentes”

A ilustração científica é rentável, em Portugal?

Mais ou menos. Existe interesse, mas, quando a ilustração poderia ser útil, pensa-se primeiro em fotografia porque é low cost, mas não tem o mesmo impacto, nem o mesmo nível de informação.

Temos de ir à procura, não podemos ficar à espera que os projetos nos batam à porta porque isso não vai acontecer. Temos de descobrir necessidades, ter iniciativa.

Em Portugal, é muito raro haver ilustradores científicos residentes. Lá fora, existem organizações, sobretudo, ambientais, que têm pessoas cuja única tarefa é ilustrar. É o sonho de qualquer um. Quem me dera que surgisse uma organização que me propusesse isso, mas é muito difícil...

E o futuro?

Há uma série de projetos na calha, mas que ainda estão muito verdes para serem falados. Se temos uma boa ideia, por vezes é melhor não bradar aos céus porque nunca se sabe... (risos)

Ilustração: Lúcia Antunes

 

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Lúcia Antunes, na Exposição

Tecelão-de-cabeça-preta

Morcego-rato-pequeno, parte integrante do “Guia de Morcegos de Portugal”.

Lúcia Antunes

Ilustrações de duas conchas (Gibbula pennanti e Gibbula umbilicalis)

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