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© Flickr/CamPixie
Artigo
Publicado em 12/3/2013 por Renata Silva

O que explica cientificamente o comportamento canino, no que toca à agressividade? A ciência tem uma palavra a dizer quanto a este assunto que tem vindo a ser discutido em sociedade. 

No senso comum ouvimos falar em raças potencialmente perigosas. Contudo, de acordo com Liliana de Sousa, docente de Etologia Animal do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), a expressão referida é "muito pouco científica". 

“Todos os cães são potencialmente perigosos”, acrescenta. A nível científico, existe o factor genético, ou seja, os cães têm circuitos cerebrais programados geneticamente que podem condicionar o comportamento agressivo, mas depois há o fator ambiental não menos importante. Este fator ambiental é constituído pelos “inputs” do meio. Segundo Liliana de Sousa este é particularmente pertinente em “períodos sensíveis durante os quais se devem viver experiências adequadas”. 

Nos períodos mais precoces da vida do cão, independentemente da raça, deve-se fazer a socialização. O circuito cerebral vai adaptar-se e moldar-se a esse mesmo fator: estar em sociedade. “Os primeiros três meses são cruciais. Por exemplo, se queremos que o cão viva com uma criança, então, durante esse tempo, deve estar logo em contacto com ela”, exemplifica. Se, pelo contrário, o animal estiver num ambiente hostil e de isolamento, terá um comportamento agressivo. “Os circuitos do sistema nervoso recolhem essa informação do meio ambiente e formam-se de acordo com este”, clarifica a docente. 

Conhecemos estes mesmos dados através da investigação feita em ratinhos que o comprova. Uma das conclusões foi que os ratos desenvolvidos em isolamento, quando adultos, provocam e sofrem mais lesões do que os criados em ambiente normal. 

O ideal para o cão, de acordo com o que sublinha a especialista, é estar com a progenitora durante os primeiros três meses de vida, dado que esta irá corrigir o seu comportamento, adaptando a cria ao ambiente social. “A seguir a esse período é necessário que o futuro dono continue o trabalho de socialização, através do contacto com outros animais, ou através do contacto desde cedo com crianças”, adianta. “As crianças têm movimentos atabalhoados e, por isso, é necessário que o cão se habitue a eles. Se ele nunca viu uma criança, não a vai identificar pelo seu comportamento como um ser humano”, acrescenta. 

Curiosamente, ainda dentro do tema da agressividade, a ela está associada a capacidade de olfato do cão. É importante, por isso, por exemplo, que nos demos a cheirar antes de afagarmos o pelo de um cão que não conhecemos. Isto porque eles conseguem identificar se estamos ou não com medo e reagir de acordo com isso. 

Quando sentimos medo, libertamos vários tipos de feromonas que são substâncias químicas captadas através do olfato. Esta capacidade de as detetar é comum a vários mamíferos. Para nós, seres humanos, o sentido do olfato não é primordial, uma vez que o usamos pouco em detrimento, por exemplo, da visão. 

Mas para mamíferos como os cães é fundamental. “A via olfativa é para os cães muito importante a nível da comunicação. As feromonas dão indicações de determinados estados, como por exemplo o medo”, esclarece Liliana de Sousa.  

“O que acontece quando temos medo é que há um nível de testosterona mais baixo e um nível elevado de ACTH (hormona adrenocorticotrófica)”, explica. Grandes quantidades de testosterona estão associadas, pois, à agressividade, enquanto que o ACTH está relacionado com os níveis de stress e de ansiedade.

Quando estamos com medo há uma interação entre esse medo e a agressividade, percecionada pelo cão através de uma determinada quantidade de feromonas que dão a conhecer o estado hormonal de um outro mamífero, neste caso, o ser humano. "Numa situação de stress existem duas reações: a fuga ou o ataque. Se a pessoa ou o animal não tiver como fugir, então pode usar o ataque para se defender", clarifica a docente. É por esta razão que, apercebendo-se do medo no ser humano ou num outro animal, o cão pode reagir de forma agressiva. 

Foto: Flickr/CamPixie

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