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Artigo
Publicado em 28/2/2013 por Cláudia Azevedo

Nasceu a 18 de Abril de 1973. Licenciada em Bioquímica e com doutoramento em regeneração cardíaca pela University College London, Mónica Bettencourt-Dias ficou conhecida por ter recebido, em 2012, o prémio “Keith R. Porter”, da Sociedade Americana de Biologia Celular (ASCB), pelo trabalho desenvolvido no estudo do ciclo celular e motilidade celular. É investigadora principal do grupo de Regulação do Ciclo Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência. Já fez vários workshops sobre Comunicação de Ciência.

Ainda se lembra do que sentiu quando recebeu o Prémio “Keith R. Porter”?

Foi uma surpresa agradável! Normalmente as pessoas candidatam-se. Neste caso, alguém me nomeou. Nem sei quem foi. Não fazia a mínima ideia.

Que tipo de investigação está a desenvolver?

Neste momento, estou envolvida em várias investigações que têm a ver com a multiplicação de células, o seu esqueleto e a sua mobilidade. O esqueleto das células é muito importante para definir a estrutura das células, mas também serve para definir para onde os componentes vão dentro das próprias células, ajudando-as a multiplicar-se e a mover-se.

No que consiste esse esqueleto?

O esqueleto é constituído por filamentos de componentes das células, microtubos feitos de proteínas chamadas tubulinas. Estas proteínas são responsáveis por formar os filamentos, que servem de alicerces e de auto-estradas. Imagine a sua pele. Na pele, há partes das células que estão viradas para fora e outras partes que estão viradas para dentro. O que está fora e o que está dentro é muito diferente. A própria célula tem de definir o que manda para cima ou para baixo, para a esquerda ou para a direita.

Para isso, a célula tem de ter uma estrutura, um esqueleto, auto-estradas que dão identidade às várias partes das células e que permitem que elas tenham a sua função normal, tal como o esqueleto do nosso corpo também define que tenhamos a cabeça para cima e os pés para baixo.

Alterações no esqueleto das células podem explicar doenças

Qual é o objetivo da investigação do seu grupo no Instituto Gulbenkian de Ciência?

Nós estudamos como esse esqueleto das células é definido de raiz. Perceber como o esqueleto das células é organizado permite-nos entender como é que as nossas células se movem, se multiplicam, como estabelecem diferenças. Ao perceber como elas funcionam normalmente, podemos perceber o que está alterado na doença. Há muitas doenças que têm a ver com a alteração desse esqueleto. Pode haver alterações nestes filamentos em vários tipos de organismos e não apenas no ser humano. Estas são áreas de estudo em que vários grupos em todo o mundo estão envolvidos.

Em que tipo de doenças essas alterações poderão ocorrer?

Em colaboração com o Instituto Português de Oncologia, estamos a estudar amostras de cancro de seres humanos para perceber como o esqueleto das células poderá estar alterado. Queremos saber como é que essas alterações acontecem e quais são as suas consequências. Seria um passo importante para perceber melhor o cancro e eventualmente poder utilizar como forma de diagnóstico.

“Sempre quis fazer investigação”

Esteve para seguir Medicina. Não se arrependeu?

Sempre quis fazer investigação e por isso fiz Bioquímica na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Nunca me arrependi de não ter ido para medicina. Não teria tempo para ser médica, hoje em dia. Conheço muitos bons clínicos que fazem investigação, mas é complicado. Em Portugal, o estatuto dos médicos não lhes permite fazer muita investigação. Enquanto noutros países há vários investigadores que fazem um dia de clínica todas as semanas ou de quinze em quinze dias, em Portugal os médicos têm de fazer muito mais clínica.

Esse é um potencial que se perde?

Sem dúvida. É curioso ouvir falar os clínicos que fazem investigação porque a clínica ganha com o facto de eles fazerem investigação e vice-versa. É uma pena não termos mais pessoas assim, realmente.

“Começa a haver pessoas sem financiamento”

Como foi a sua passagem pelo estrangeiro?

Estive nove anos em Inglaterra (quatro anos em Londres e quase cinco anos em Cambridge). Gostei muito. A ciência era muito boa.

É muito diferente fazer investigação em Inglaterra ou em Portugal?

Não. Depende de onde se está. Há bom e mau em todo o lado. Onde estou agora, em Portugal, temos óptimas condições para fazer investigação. Há coisas que, se calhar, podemos melhorar ainda, mas há várias pessoas que têm ganho prémios internacionais e publicado em revistas muito boas.

O que é preciso melhorar ainda?

Precisamos de financiamento. A formação e o financiamento da ciência aumentaram muito, no passado, mas, desde 2009, diria, tem havido um decréscimo. Apesar do esforço para que esse decréscimo não tenha grandes implicações na investigação que se faz, é complicado.

Tem receio do futuro?

Sim, sem dúvida. Não se pode cortar mais, de maneira nenhuma, sob o risco de aquilo que se construiu desmoronar. Estamos num ponto em que começa a ser perigoso porque começa a haver pessoas sem financiamento.

Coloca a possibilidade de ir novamente para fora do país?

Não me faz confusão sair novamente do país, não me importaria, mas temos de tentar perceber o que passa e contribuir para melhorar o sistema e não ir embora. Vale a pena dizer que não podemos cortar mais para não perdermos o grande avanço que foi dado e que pode ter retorno em termos económicos. Há empresas que se desenvolvem à volta da ciência e que poderão contribuir para o desenvolvimento da economia portuguesa. Isso é muito importante, se queremos ser inovadores.

“Há muito interesse da comunicação social em relação à Ciência”

Outra das suas áreas de interesse é a Comunicação de Ciência. Porquê?

Fiz um Curso de Comunicação de Ciência em Inglaterra e, durante esse Curso, aprendi a fazer programas de rádio, televisão e outras coisas. Fiz alguns workshops para treinar cientistas para comunicar com o público e com os media.

Onde é os cientistas ainda falham na comunicação?

Não diria que falham. É uma questão de treino. Pode-se treinar a simplificação da mensagem, saber que temos de passar apenas uma ou duas mensagens. Mesmo saber como se está em frente a uma câmara ajuda. Saber descodificar a mensagem também é importante.

Sente que os cientistas e os media estão mais próximos?

Em Portugal, há muito interesse da comunicação social em relação à Ciência, o que é positivo. Se calhar há menos jornalistas formados em ciência do que noutros países.

Acha que os jornalistas de ciência deviam ter formação em ciência?

Não acho que seja essencial. Há ótimos jornalistas que não são formados em ciência. Mas acho que devia haver jornalistas formados na área da ciência. Pode haver alguma vantagem na interação com os cientistas, na descodificação e na criação de metáforas. Mas não tem de ser, não é obrigatório. Se as pessoas fazem um trabalho sério, é indiferente a formação delas. Podem demorar mais tempo, mas conseguem fazer um bom trabalho. E há muitos cientistas a fazer a lateralização para a chamada comunicação de ciência, o que pode ser muito positivo.

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