Content
  • PT
  • ENG
© João Cosme
Artigo
Publicado em 15/10/2012 por Renata Silva

Aos 40 anos, João Cosme já explorou muitos recantos da natureza em Portugal.  A paixão pela fauna e flora levou-o a concretizar o sonho de se tornar fotógrafo de natureza profissional e a editar livros que mostram o seu trabalho, reconhecido internacionalmente e que pode ser visto em várias publicações como a "National Geographic" portuguesa e a revista "Única" do semanário Expresso. 

Como surgiu o interesse pela fotografia da natureza?

Antes de iniciar o meu percurso fotográfico, a minha grande paixão e fascínio era o mundo das aves. Ainda adolescente e a viver no campo, era fácil o contacto com a vida selvagem. Passava horas na floresta na observação de pequenos passeriformes. Mais tarde comecei também a interessar-me por outras áreas, como os anfíbios, répteis e mamíferos. Mas foi, sem dúvida, alguns dos documentários sobre a vida animal, que me despertaram ainda mais o interesse pela natureza. Na época, em Portugal, era exibido o "Homem e a Terra" do Espanhol Félix Rodriguez de la Fuente, sobre a fauna ibérica. Foi o grande motivo para desencadear o meu interesse pela fotografia de vida selvagem.  Iniciei, posteriormente, uma longa caminhada de aprendizagem na área da fotografia, ainda na era da película. Essa aprendizagem era bem mais lenta, pois só passados alguns dias se via o resultado final com a revelação.

Qual foi até agora o trabalho fotográfico que mais gosto lhe deu fazer? Qual o animal, por exemplo, que mais gostou de fotografar?

Já realizei diversos trabalhos que foram, sinceramente, de muita satisfação. Refiro-me, por exemplo, a projetos editoriais como os meus últimos livros  "Natureza Íntima" e "Rios de Vida" – onde tinha determinado objetivo. Havia espécies que queria abordar de forma diferente, o que não era fácil, mas são estes desafios que tornam um projeto aliciante. Tenho diversas espécies sobre as quais adoro trabalhar. Por exemplo, o melro-d’água sempre foi uma das espécies de aves que mais me fascinou, quer pela sua beleza, quer pelo seu comportamento. A aguia-de-bonelli é uma das grandes aves de rapina que me fascinam, quer pela sua elegância quer pela sua magnífica agilidade. O britango ou abutre do Egito é outra ave que aprecio. Contemplar a sua silhueta é uma visão única.

Há algum local do país que ache mais interessante fotografar? Que lhe dê mais gozo fotografar?

O nosso país, ao contrário do que muita gente pensa, tem regiões maravilhosas, únicas, e, no meu caso pessoal, em muitas delas, quando penso que já as conheço bem, sou surpreendido por novos locais, cheios de bons motivos fotográficos. Sempre gostei de explorar determinados ecossistemas, uns porque tive uma ligação desde adolescente, como as florestas e rios, outros pela sua fauna, como as montanhas/serras. Um local  que me fascina em particular é, sem dúvida, os cursos fluviais de montanha, e na minha região, a serra do Caramulo, no concelho de Vouzela, felizmente ainda "correm" livres e bem preservados. Outras regiões de que não me canso de explorar é o Parque Natural do Douro Internacional e o vale do Côa, mais concretamente no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Esta região tem paisagens, rios e uma fauna diversificada, como as grandes rapinas. Toda esta multiplicidade é motivo suficiente para ter um gozo enorme no meu trabalho.

Em que projetos ligados a esta área está atualmente envolvido?

Neste momento estou ligado a diversos projetos fotográficos, quer pessoais quer para clientes. Terminei este ano um projeto editorial chamado "Terra Rural" que é sobre a região de Ribacôa, cujo o objetivo é mostrar um misto de natureza e cultura. Espero que ainda este ano seja editado, mas isso já não depende de mim. Na minha região, estou envolvido num trabalho de recolha de imagens, sobre o património arbustivo que inclui também investigação científica, a qual estou a acompanhar.

Qual foi até agora o ponto alto no seu percurso como fotógrafo da natureza?

Em resposta à questão, poderia falar em dois pontos cruciais na minha atividade profissional. Um, como é óbvio, é a publicação de um livro, sobre um projeto pessoal, que pode demorar anos a concluir e é sempre um grande objetivo de um fotógrafo. O outro, e talvez o mais importante, foi tornar-me fotógrafo profissional de natureza e vida selvagem, já que era um sonho que se tornava realidade. Não digo que seja o ponto alto da minha atividade, mas foi certamente marcante. O que considero fundamental é passar uma mensagem para a opinião pública, através das imagens, e com isso, sensibilizar e alertar para a importância da conservação da natureza.

Que cuidados tem de ter um fotógrafo de natureza quando vai para o terreno? Que desafios enfrenta?

Depende sempre dos nossos objetivos. Por norma, elaboro sempre um plano de atividades consoante os meus projetos fotográficos ao longo de um ano. Temos vários fatores que podem ser essenciais no resultado final. Uma pesquisa detalhada do relevo do terreno, as condições meteorológicas e depois o trabalho de investigação no campo, com recurso a binóculos. Talvez esta última seja a parte em que podemos encontrar sérias dificuldades, porque, por exemplo, fotografar uma espécie de ave, requer tempo e observação antes de efetuar o trabalho fotográfico. Passar horas dentro de abrigos, por vezes dias, para ter o resultado que se pretende. É necessário ter paciência e paixão por esta profissão. A colaboração de investigadores, biólogos, e amigos fotógrafos é outro elemento importante e fundamental. Muitas vezes, para realizar uma reportagem sobre uma determinada espécie, é necessária uma autorização, que demora tempo e cria alguns problemas. É bem mais fácil tirar uma licença de caça. É curioso, mas é a verdade.

Que conselhos dá a quem quer ser fotógrafo da natureza?

Hoje em dia, e com o acesso ao digital, a evolução pode ser mais rápida. Na minha opinião, é necessário ter paixão pela natureza. Ter a capacidade de ser um bom autocrítico e ser criativo são normas essenciais. Atualmente qualquer pessoa faz registos fotográficos, mas apenas alguns conseguem passar uma mensagem atrativa. Ver trabalhos de fotógrafos conceituados em sites, livros e revistas de qualidade são motivos que provocam inspiração e uma cultura fotográfica positiva.

Na sua opinião, qual a grande missão de um fotógrafo de natureza?

Uma imagem pode ter um grande impacto, quer na opinião pública, quer até nos decisores políticos. O trabalho de um fotógrafo serve essencialmente para alertar e divulgar os valores naturais do seu país. Serve também para mostrar os mistérios da natureza, que muitas vezes não são conhecidos do grande público. Dou um exemplo: a grande maioria das pessoas desconhece que em Portugal existem abutres, pois associam estas aves necrófagas ao continente africano. Este facto acontece também porque os documentários que passam na televisão divulgam com mais regularidade a fauna de outros locais do planeta e é raro observar um documentário sobre a nossa fauna na televisão. 

Tem um novo livro em preparação. Pode falar-nos um pouco dele?

Este meu novo projeto editorial, que espero terminar na próxima primavera, é uma visão muito íntima da serra do Caramulo, onde farei uma viagem desde os pontos mais agrestes aos mais recônditos vales. Os rios terão um grande protagonismo, quer a nível da flora quer da sua fauna mais peculiar. Será uma viagem com uma abordagem nas diferentes estações do ano. Tenho imagens que pretendo realizar sobre algumas espécies. Umas que ambiciono melhorar esteticamente, outras ainda em falta. A par deste livro, estou a trabalhar numa grande exposição que servirá para promover este projeto. Espero que se concretize antes do final deste ano.

Quais os seus projetos para o futuro?

Projetos e ideias, não me faltam, mas a fotografia de natureza não é algo que se pode afirmar que se conclui amanhã. Pode demorar anos, e depois a falta de apoios é outra dificuldade. Ando há alguns anos a trabalhar no Douro Internacional, onde o objetivo é editar um livro denominado "Douro Selvagem", mas é uma região imensa e requer tempo. Há ainda muitas espécies que é obrigatório retratar, o que torna o processo demorado, apesar de já ter uma boa parte concluída. Neste momento, preocupo-me com o presente e no que estou a trabalhar, só depois oriento as minhas ideias noutros projetos.

Na foto: Guarda-rios  (Alcedo atthis)

 © João Cosme

 

 [Ver galeria de imagens do autor]

 

Este artigo deu origem a uma pergunta no quiz de ciência LabQuiz, um divertido jogo desenvolvido pelo Ciência 2.0 para Android e iOS.
Disponível na Google Play:
https://play.google.com/store/apps/details?id=air.ciencia20.up.pt.quiz

Disponível no iTunes:

https://itunes.apple.com/WebObjects/MZStore.woa/wa/viewSoftware?id=937234713&mt=8

 

 

Partilha


Comenta

Consola de depuração Joomla

Sessão

Dados do perfil

Utilização de memória

Pedidos à Base de dados