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Artigo
Publicado em 25/7/2012 por Renata Silva

Tal como o é para várias mulheres  complexo – também se pode dizer que o é para diversos investigadores que procuram perceber o que causa este conjunto de sintomas que variam consoante a pessoa, repetindo-se ciclicamente. O que é afinal a Síndrome Pré-Menstrual? Como podemos explicá-la? O Ciência 2.0 procurou responder a estas questões. 

Vários estudos indicam que cerca de 90 por cento das mulheres em idade reprodutora sofrem da Síndrome Pré-Menstrual, vulgarmente conhecido por TPM (Tensão Pré-Menstrual). Destas, calcula-se que entre 2 a 10 por cento sofra de uma forma agravada deste problema: a Perturbação Disfórica Pré-Menstrual.

De acordo com um artigo da autoria de Paula K. Braverman publicado em 2007 no Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology, a Síndrome Pré-Menstrual é um conjunto de sintomas previsíveis a nível físico, cognitivo, afetivo e comportamental que ocorrem ciclicamente durante a fase lútea (cerca de dez dias antes da menstruação) [ver glossário] do ciclo menstrual e que terminam no início da menstruação ou alguns dias depois. 

Segundo a tese de mestrado de Débora Aguiar Câmara, denominada “Síndrome Pré-Menstrual: Estudo da prevalência em alunas da Universidade da Beira Interior”, publicada em 2011, não são inteiramente conhecidas as causas e origens desta perturbação psiconeuroendócrina, que varia de mulher para mulher.

De acordo com a autora que cita vários estudos, teoriza-se sobre uma disfunção do eixo do hipotálamo-hipófise-ovário, uma resposta anormal à oscilação dos níveis dos esteroides sexuais, alterações dos neurotransmissores (como a serotonina e o GABA- ácido gama-aminobutírico, responsável por regular a excitação neuronal) e a influência de fatores genéticos no mecanismo fisiológico.

"O estrogénio e a progesterona podem estar na origem dos desequilíbrios responsáveis pela Síndrome Pré-Menstrual. As mulheres nesta fase do ciclo menstrual estão "desafinadas", naquele que é um processo múltiplo e subjetivo  um complexo de doenças que depende da constituição de cada uma", explicou ao Ciência 2.0, José Martinez de Oliveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Ginecologia. 

Jogo biológico de hormonas e de neurotransmissores

“É uma área bastante complexa e que tem uma componente cerebral relevante. É do cérebro que vêm algumas hormonas que interferem diretamente neste processo, que é um jogo hormonal”, salienta, por sua vez, Henrique de Almeida, docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). 

A intervenção destas hormonas pode estar na origem dos mais diversos sintomas [são conhecidos cerca de 200] como manifestações uterinas, mamárias, mudanças de humor, ansiedade, sensação de plenitude abdominal, distensão nos membros inferiores, sensação de má circulação periférica,  entre outros.

De acordo com o trabalho de Braverman, alguns autores acreditam que as endorfinas, associadas ao bem-estar, estarão também envolvidas e estes neurotransmissores centrais (endorfinas, serotonina e dopamina), em conjunto com as hormonas, poderão tornar as mulheres mais sensíveis às flutuações hormonais próprias do ciclo menstrual.

A ação destes neurotransmissores e hormonas tem sido, segundo um estudo realizado por Gislene C. Valadares e outros autores publicado em 2006, alvo de várias investigações que tentam justificar os quadros mais depressivos da Síndrome Pré-Menstrual, associados à serotonina e à dopamina, que podem estar por detrás das alterações de humor, falta de atenção, desânimo, descontrolo do peso corporal, entre outros. Calcula-se que uma desregulação dos níveis de serotonina poderá originar vários sintomas da TPM. 

Os efeitos da interferência de hormonas e neurotransmissores são vários. Em relação às hormonas, no caso da progesterona, por exemplo, sabe-se que é produzida em grande quantidade durante esta fase. Esta é necessária para preparar o útero para uma possível gravidez. “Esta hormona pode interferir com a movimentação gástrica, conduzindo a uma sensação de náusea, um dos sintomas da Síndrome Pré-menstrual”, salienta Henrique de Almeida.

Como se sabe que existe SPM e como se trata?

Para o diagnóstico de SPM, ainda de acordo com o documento de Braverman, os sintomas têm de ocorrer exclusivamente na fase lútea e desaparecer dentro de poucos dias após o início da menstruação, têm de ser documentados durante vários ciclos menstruais seguidos e não ser suscetíveis de serem explicados por outras condições físicas e psicológicas, tendo também que ser suficientemente fortes para interferir nas atividades normais do dia-a-dia.

Quanto aos fatores de risco da Síndrome Pré-Menstrual, alguns estudos, segundo a mesma autora, apontam para a hereditariedade como um dos motivos para aumentar a probabilidade de sofrer estes sintomas. Outros fatores, indicados na tese de mestrado de Débora Câmara, relacionam-se com o stress, tabagismo, consumo excessivo de café, álcool e chocolate, entre outros.

"A avaliação e estudos da Síndrome Pré-Menstrual têm de ser feitos em função da avaliação do perfil de cada mulher", acrescenta o ginecologista, referindo que não existe nenhum tipo de tratamento universalmente aceite, visto que este terá de se adequar ao tipo de sintomas. De acordo com o estudo de Débora Câmara, a cultura e etnicidade podem interferir na forma como são perpecionados os sintomas de TPM.

Uma questão de perceção

Henrique de Almeida explica que a tristeza e sensação de mal-estar associadas a este período podem estar relacionadas com a perceção de cada pessoa. No exemplo da progesterona, a sensação de náusea suscetível de ser provocada pode deixar a mulher ainda mais perturbada e levar a um efeito vicioso, segundo refere o docente. “Às vezes tranquilizar uma mulher e dizer-lhe que é normal, pode ajudar a atenuar os sintomas”, salienta.

Para os casos mais graves, como por exemplo de Perturbação Disfórica Pré-Menstrual, em que se agravam sintomas como a depressão e a ansiedade, o tratamento é feito com antidepressivos. Em certas situações, é possível recorrer ao uso da pílula para regular o ciclo hormonal, como explica o docente da FMUP. "Quem toma contracetivos orais tem menos sintomas, pois recebe sempre a mesma dosagem de estrogénio e progesterona e não existe tanto desequilíbrio", reforça José Martinez de Oliveira. 

Segundo Braverman, existem algumas modalidades de terapia aconselhadas que não são consensuais entre os estudos. Por exemplo, são referidos os casos das mudanças do estilo de vida, a nível da prática de exercício físico e do controlo do stress que podem aumentar os sentimentos de bem-estar; da educação das adolescentes para a fisiologia do ciclo menstrual e para a relação das hormonas com os sintomas; das técnicas de relaxamento; da toma de vitaminas e minerais; etc.

Se os sintomas mais incomodativos persistirem ou se agravarem ao longo de três ou quatro meses seguidos é aconselhado pelos especialistas a procura de um ginecologista, pois existem sintomas deste problema que coincidem com doenças como a endometriose [ver glossário], distúrbios depressivos, ou até com a menopausa.

Glossário:

Fase lútea – Fase do ciclo éstrico que tem lugar a seguir à ovulação. Nesta fase, o corpo lúteo segrega estrogénios e progesterona, os quais preparam a parede uterina para a gravidez. 

Endometriose – Trata-se de uma doença que atinge as mulheres em idade reprodutiva e que consiste na presença de células endometriais em locais fora do útero. O endométrio é a camada interna do útero que é renovada mensalmente durante a menstruação.

Foto: Flickr/perlita

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