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© Flickr/flattop341
Artigo
Publicado em 12/7/2012 por Isabel Pereira

Buzinas, carros, sirenes, aviões, música, pessoas e mais pessoas… O ruído é uma constante nos dias de hoje, principalmente nas grandes cidades. Para a nossa saúde os efeitos fazem-se sentir  na audição e também a nível psicológico.

A perda auditiva é a consequência mais extrema da exposição a níveis excessivos de ruído, mas não é a única. Se os sons com frequências [ver glossário] mais agudas (mais elevadas) causam lesões auditivas, os sons mais graves (típicos do ruído ambiental ou urbano) causam perturbações comportamentais, problemas de sono, stress e até depressões.

“Ruídos acima de uma determinada pressão acústica [ver glossário] são sempre lesivos para o ouvido humano, no entanto, a probabilidade de provocar lesões depende da intensidade dos picos de pressão e do tempo de exposição”, explica Celso Martins, da Associação Portuguesa de Audiologia. O som começa a ser lesivo acima dos 80dB, e quando sujeitos a uma pressão acústica de 120/130dB passamos o chamado limiar de conforto ou limiar de dor. Estas situações mais extremas são quase sempre lesivas, mesmo que se trate de algo episódico.

Em que situações são atingidos estes valores? Falamos, por exemplo, em ruídos industriais (áreas da metalomecânica, têxteis, serralharias, empresas que usam rotativas, etc.); no ruído a que estão expostos os profissionais que trabalham nos aeroportos, junto dos aviões; ou no som dos tiros a que estão sujeitos os militares.

Mas falamos também num outro tipo de ruído: o de lazer. O som que ouvimos nas discotecas ou através dos auscultadores é cada vez mais uma causa de problemas auditivos. Se pensarmos que alguns destes dispositivos de música atingem 110dB de pressão acústica (valores semelhantes aos registados em contexto industrial), percebemos a gravidade da situação. “Os jovens passam muitas horas entre ouvir música e falar ao telemóvel. Isto começa a ser um problema de saúde pública”, adverte o especialista.

O que acontece à nossa audição

O aumento da pressão acústica faz com que as vibrações que ocorrem no nosso ouvido ao receber o som sejam mais intensas, e, quando excessivas, danificam as células do ouvido interno. “As zonas mais afetadas são as células da base da cóclea, onde são rececionadas as frequências agudas”, refere Celso Martins, esclarecendo que “as perdas são centradas na zona específica da cóclea que recebe a frequência a que a pessoa mais está exposta”. [ver infografia sobre o funcionamento do ouvido]

Esta perda auditiva que ocorre devido ao ruído é um problema que se vai instalando de forma gradual e sem nos darmos conta dele, mas a verdade é que não é tão lento como se julga. Se falarmos numa exposição acima das 4/5 horas por dia a valores constantes superiores a 80dB (facilmente atingidos pelos auscultadores de mp3), “não são precisos muitos anos para se começar a notar uma perda auditiva e com o passar do tempo essa perda vai-se agravando até se tornar um problema comunicativo”.

A suscetibilidade ao ruído e, consequentemente, a intensidade das lesões auditivas provocadas por ele dependem de pessoa para pessoa, mas uma vez provocados, estes danos são irreversíveis. As células lesadas não recuperam. “Perde-se em quantidade auditiva e também em qualidade”, clarifica o audiologista. “As pessoas perdem a capacidade de perceber as palavras”. Para além de não receberem o sinal da mesma forma, perdem também a capacidade de o interpretar.

Do stress à depressão 

Do ponto de vista psicológico, o ruído mais prejudicial é aquele que é contínuo, embora não tão intenso como o que provoca lesões auditivas. Falamos do ruído ambiental ou urbano. “Numa fase inicial gera stress, perturbações de concentração e perturbações de sono”, refere o psicólogo Fernando Magalhães. “O cérebro interpreta o ruído como sinal de alarme e mantém-se em vigilância quando devia estar a desligar para o sono, ou a centrar-se noutras atividades”, explica.

O especialista destaca a privação do sono como consequência mais preocupante deste problema. “Se durante o dia estamos muito estimulados, ou até irritados com o ruído, vai ser preciso um esforço extra para desligarmos disso e conseguimos adormecer. Por outro lado, pode ser o ruído do momento a não deixar adormecer.”

Numa fase mais avançada isto pode dar azo a estados de ansiedade generalizada, e até a depressões. “O cérebro deixa de ter capacidade de desligar e relaxar e há uma perda de energia crescente”, refere o especialista.

 Como se abstrair do ruído? 

Na perspetiva psicológica, o ruído é “uma interpretação subjetiva, que depende do que cada pessoa interpreta como algo desagradável, algo intrusivo ou algo que provoca uma emoção negativa”. Desta forma, Fernando Magalhães aponta algumas estratégias para que o ruído “lhe passe ao lado”:

-Relaxar: Se estamos num estado de relaxamento não estamos tão disponíveis e tão focados em fatores de ruído. Se, pelo contrário, estivermos stressados, qualquer coisa nos vai irritar.

-Desviar a atenção para uma interpretação mais eficaz dos estímulos: Aprender a gerir as emoções negativas geradas pelo ruído interpretando-o como algo de inofensivo. Por exemplo, ao ouvir uma ambulância o pensamento imediato é “há uma catástrofe, há algo mau está a acontecer”, mas podia ser “não é para mim”, ou “ vai ajudar alguém que está a precisar”.

Aceitar: Não estar a batalhar contra o ruído, quando ele não pode ser controlado por nós, porque isso só vai criar mais stress. Abdicando da luta contra o estímulo (quando esta não é produtiva), é mais provável que ele se torne neutro e eu deixe de dar conta dele.

 

Glossário:

Pressão sonora - Variação média de pressão em relação à pressão atmosférica. O Nível de pressão sonora num determinado ponto é expresso em decibels (dB).

Frequência sonora - A frequência é a característica através da qual o ouvido distingue se um som é agudo ou grave. Esta característica está relacionada com a quantidade de ciclos completos (vibrações) de uma onda sonora, que ocorrem num período de 1 segundo, e é expressa em Hertz (Hz).

Foto: Flickr/flattop341

 

 

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