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© Flickr/Yulia Volodina
Artigo
Publicado em 2/7/2012 por Renata Silva

Um beijo é um “toque de lábios, pressionando ou fazendo leve sucção, geralmente em demonstração de amor, gratidão, carinho, amizade, etc”, de acordo com o que nos diz o dicionário. Mas a filematologia, a ciência que estuda o beijo, tem muito mais que se lhe diga. 

Cerca de 90 por cento da espécie humana comunica através do beijo, mas ele é muito mais do que o contacto entre lábios. É que é através de um beijo, por exemplo, que se escolhe o parceiro sexual, diz-nos Margarida Braga, do Departamento de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), citando um estudo de 2007 publicado na revista científica “Evolucionary Psicology”, sobre as diferenças de género em relação ao ato de beijar. 

Esta distinção entre homem e mulher está relacionada com o nome que se dá à ciência do beijo – a filematologia, devido a uma característica etológica. “Pensa-se que de alguma forma cabe às fêmeas escolher o seu parceiro para procriar e que têm uma obrigação filogenética de encontrar um bom companheiro”, explica a docente.

Mas afinal de onde vem o beijo? Existem pelo menos duas explicações que podem esclarecer a sua origem. De um lado, Margarida Braga refere-nos uma teoria apontada: “Existem teorias de que o beijo tem a ver com a alimentação boca a boca, como as aves, em que a mãe deposita com o seu bico a comida no bico da ave. Mas já há desafios a esta tese. De alguma forma os cuidados maternais passam muito pelo beijo, de ensinar à criança a importância desta manifestação”. Por outro, em relação ao beijo com conotação mais sexual, sabemos que se relaciona com o olfato e o paladar, uma explicação dada ao Ciência 2.0, por Ana Alexandra Carvalheira, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica: “É muito possível que tenhamos começado a beijar para sentir o gosto e o cheiro de alguém”.

Estes dois sentidos, olfato e paladar, têm uma função importante no beijo. De acordo com Ana Carvalheira, o olfato é “o órgão mais primitivo e mais poderoso a nível sexual naquilo que é a atração e o prazer”.

Prazer, bem-estar e menos stress

O beijo liberta a oxitocina, uma hormona ligada ao amor e também excitação sexual. Através desta libertação, aumentam também os níveis de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer, pois o circuito cerebral considera positivo o incremento da oxitocina. Esta substância faz-nos referir mais uma diferença entre homem e mulher esclarecida por Margarida Braga – é que “aumenta mais nos homens do que nas mulheres”.

Sabe-se, resumindo, que a estimulação cerebral causada por um beijo leva à produção de oxitocina, noradrenalina, dopamina e serotonina [influenciam o humor, ansiedade, sono e alimentação]. Para além desta libertação, desencadeia-se também, durante os preliminares do ato sexual, fenómenos periféricos na dependência da libertação de testosterona e da sua degradação em estradiol (hormona sexual). A saliva contem ainda testosterona, sendo uma das explicações prováveis para alguns estudos referirem que os homens preferem beijos mais húmidos e com a boca mais aberta (o que favoreceria a estimulação sexual da mulher e permitia também avaliar a fertilidade e o ciclo estrogénico) segundo nos explica Margarida Braga, citando a antropóloga Helen Fisher

Seletividade do sistema imunológico

O beijo também está relacionado com o sistema imunológico. “Há um estudo recente que diz que o beijo serve para as mulheres serem expostas a determinados anticorpos que lhes desencadeiam uma reação imune de forma a preparar para a escolha do par: há um “match imunológico””, explica Margarida Braga. “Como a saliva é rica em compostos químicos seria uma forma de identificação imunitária, as células poderiam identificar outras com quem seria vantajoso conjugar”, acrescenta.

Para além disso, sabe-se que o beijo tem vários benefícios. Um deles está relacionado com uma forma de combate à depressão, facto que, de acordo com a docente, ainda não está comprovado totalmente. Com um ósculo, um sinónimo para este ato, baixam-se os níveis de cortisol, uma hormona que rege a resposta ao stress do nosso organismo, sendo que é considerado um calmante natural.

Beijar faz ainda com que o nosso sistema imunitário fique reforçado, visto que ele aumenta a sua atividade. Transmitimos vírus através deste contacto físico e por isso se promove “uma espécie de defesa e um fator de equilíbrio homeostático entre nós e o ambiente”, refere Margarida Braga. Este reforço é conseguido não apenas através da composição dos fluidos de um beijo, mas também a nível central, pois o cérebro tem a capacidade de equilibrar este sistema.

Foto: Flickr/Yulia Volodina

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