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©Flickr/David Belo
Artigo
Publicado em 18/6/2012 por Isabel Pereira

Estamos habituados a vê-las dentro de uma lata ou entre dois pedaços de pão. Mas quem imaginaria que a rainha dos santos populares tem um sistema de flutuação equivalente ao dos submarinos, ou que a sua boca dispõe de uma estrutura que lhe permite ingerir o alimento de modo semelhante ao de algumas baleias?

Sardina pilchardus é o nome científico da iguaria mais consumida nas festas populares que animam o verão. Esta é a espécie de sardinha pescada ao largo da costa portuguesa. Vive em cardume e distribui-se predominantemente pelas águas do Mediterrâneo ocidental e do Atlântico nordeste, desde as Ilhas Britânicas até ao Senegal. O seu habitat restringe-se essencialmente à plataforma continental, isto é, junto à costa e até profundidades de 200 metros. Trata-se de um peixe pelágico, ou seja, que vive exclusivamente nadando na coluna de água.

Entre as características do animal, destaque-se a sua bexiga natatória. [ver animação abaixo] “Uma estrutura anatómica que todos os peixes ósseos têm (por exemplo a sardinha, o sargo, a dourada, o robalo, o carapau...), e que é “semelhante ao príncipio físico utilizado nos submarinos para conseguirem emergir e submergir”, explica Pedro Morais, investigador do CIIMAR (Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental). A sardinha engole o ar, junto à superfície, e ao regular a quantidade de ar que tem na bexiga posiciona-se na coluna de água sem despender tanta energia para nadar.

Curioso é também o funcionamento da sua mandíbula. A boca da sardinha, ao contrário do que acontece com os peixes carnívoros, como a dourada ou o sargo, tem uma abertura mandibular bastante grande, operando aquilo a que se chama "protração da mandíbula". Imagine a forma como as baleias que comem krill abrem a boca para ingerir o alimento, o que se passa com a sardinha é semelhante, “conseguindo aumentar a área de filtração e assim ingerir uma maior quantidade de comida”.

“Em pouco anos a população de sardinha tem grandes variações”

Aves marinhas, mamíferos marinhos, outros peixes carnívoros e, claro, o homem são os predadores da Sardina pilchardus. Ela é pescada em grande quantidade, mas, “não há razões para que, hoje em dia, o stock colapse em função de um excesso de pesca”, destaca o investigador do CIIMAR. “Todos os anos o IPIMAR [Instituto de Investigação das Pescas e do Mar] faz uma avaliação do stock de sardinha, para orientar os decisores políticos ao nível da União Europeia na definição das cotas de pesca”, esclarece.

Este controle tem de ser feito anualmente, até porque, em pouco tempo, a população de sardinha oscila bastante. Entre 1985 e 1989, por exemplo, estima-se que o stock reprodutor passou de 700 mil para 400 mil toneladas de sardinha ao largo da Península Ibérica. Já entre 1999 e 2005, a quantidade do stock reprodutor de sardinha duplicou (300 mil para 600 mil toneladas).

De acordo com Pedro Morais, estas variações “não têm a ver com o esforço de pesca”. Resultam de uma "conjugação de fatores, muito relacionados com o meio natural, e que interagem de forma complexa".

Sabe-se que um dos fatores importantes é, por exemplo, a quantidade de alimento disponível. A sardinha alimenta-se de plâncton – pequenos organismos que vivem à deriva na coluna de água e movimentam-se essencialmente em função do movimento das correntes , ora quanto mais plâncton existir, mais hipóteses de sobrevivência terá a sardinha.

Chuva e nortada q.b. aumentam o alimento da sardinha

Por sua vez, a quantidade de plâncton vai depender da quantidade de nutrientes presentes na água. Alguns nutrientes vêm do continente e são levados para o oceano pelo caudal dos rios, que aumenta em função das chuvas. Outros nutrientes vêm do fundo do mar.

A nortada, que se faz sentir na costa Norte de Portugal, desencadeia fenómenos de “upwelling”, ou seja, um ressurgimento da água do fundo do oceano à superfície trazendo consigo nutrientes.

Refira-se que estes fenómenos vão atuando em cadeia, pelo que o seu efeito só será assinalável a longo prazo, e nem sempre é tão linear quanto possa parecer. "Se a ocorrência de upwelling durante o período de reprodução for excessiva, o seu efeito positivo para a população de sardinha poderá ser minimizado pela dispersão dos ovos e larvas para locais desfavoráveis à sobrevivência", esclarece o investigador do CIIMAR.

Foto: Flickr/David Belo

 

 

Ilustração e Animação de Diana Marques

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