Content
  • PT
  • ENG
© Flickr/ilyoungko
Artigo
Publicado em 23/1/2014 por Cláudia Azevedo

No futuro, será possível prever qual o risco de uma grávida sofrer de incontinência urinária ou prolapso após um parto normal (vaginal) e, se o risco for elevado, optar pela realização de uma cesariana. A investigação realizada na Universidade do Porto tem permitido avançar no conhecimento da biomecânica dos tecidos envolvidos e na previsão e prevenção da ocorrência de determinadas patologias em casos concretos.

Rir, tossir e praticar desporto são ações que praticamos naturalmente no nosso dia-a-dia. Para algumas mulheres, porém, uma simples gargalhada pode ser um problema, no mínimo, incómodo.

Sabe-se que cerca de 50% das mulheres experimenta algum grau de incontinência urinária ou de prolapso genital ao longo da vida, sendo estas patologias mais frequentes após os 65 anos de idade, de acordo com dados nacionais e internacionais.

Para a International Continence Society (ICS), existe incontinência urinária desde que a mulher perca uma gota de urina, mas este é essencialmente um diagnóstico clínico. Entre os principais fatores de risco estão a gravidez e o parto vaginal, que pode produzir danos no pavimento pélvico da mulher, uma estrutura muscular de suporte dos órgãos da cavidade pélvica (como a bexiga e uretra). No pós-parto, isto é relativamente comum. No entanto, por vezes, esses danos mantêm-se vários anos depois do parto, podendo ser irreversíveis.

Entre as patologias associadas ao pavimento pélvico estão também a incontinência fecal e o prolapso genital, que consiste na descida dos órgãos pélvicos pela vagina. Estes podem mesmo ficar visíveis, nos casos considerados mais graves.

A solução será prevenir, em vez de remediar. É isso que está a tentar fazer um conjunto de investigadores de diferentes áreas do saber, como a Engenharia Mecânica e a Medicina, em particular a Uroginecologia.

“Temos diversos projetos a decorrer, um dos quais em conjunto com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e o Hospital de São João. O nosso objetivo é desenvolver uma metodologia que permita auxiliar a estimativa de uma mulher vir a ter incontinência ou prolapso dentro de 5, 10, 20 ou 30 anos, caso se submeta a um parto vaginal. Este seria mais um indicador, mais uma variável, para ajudar o clínico e a grávida na decisão do tipo de parto”, explica Renato Natal Jorge, do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

Para já, o que estes investigadores fizeram foi transportar os modelos matemáticos e computacionais utilizados na Engenharia para estudar a mecânica e a cinemática dos órgãos da cavidade pélvica. A cinemática está fortemente associada com a geometria e principalmente com as propriedades dos tecidos (maior ou menor rigidez).

Graças a estes modelos, a equipa conseguiu quantificar o nível de esforço provável no parto e o nível de dano, para cada caso em concreto (numa mulher com determinado pavimento pélvico e grávida de um bebé com determinadas dimensões), sendo que o nível de esforço pode atingir o dobro se o bebé não estiver no modo de apresentação mais favorável [ver link em recursos].

Ao aumentar o nível de esforço, aumenta também a probabilidade de ocorrerem danos e de a mulher vir a sofrer de incontinência urinária ou de outra patologia do pavimento pélvico. “Isto é algo que os clínicos já sabiam como resultado da prática clínica e que nós viemos confirmar e corroborar de um modo quantificado”, continua.

Incontinência urinária pode atingir 80% das atletas

Outro projeto da equipa de Renato Natal Jorge, envolvendo também a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FDEUP), analisa a incontinência urinária em jovens atletas que praticam desportos de alto impacto, como o salto em trampolim e o halterofilismo, que induzem uma elevada pressão intrabdominal, pressão essa que pode danificar as estruturas de suporte da bexiga e de outros órgãos pélvicos.

Nas modalidades mais críticas, a incontinência urinária pode atingir 80% das atletas.

“A Engenharia é uma ciência de previsão. Estamos a transpor os nossos modelos matemáticos para tentar explicar por que uma mulher com 18 anos já é incontinente quando poderia nunca sofrer de incontinência e por que algumas têm a patologia e outras não”, revela o engenheiro da FEUP.

Noutro estudo, prossegue, “estamos a determinar, in vitro (em laboratório), as características mecânicas (como a capacidade de resistência e a flexibilidade) dos tecidos da cavidade pélvica da mulher. Temos contado com a colaboração do Hospital de São João e da delegação Norte do Instituto de Medicina Legal”.

Segundo o investigador, “as conclusões vão ao encontro do que os clínicos já sabiam de forma empírica: o tecido vaginal, no compartimento anterior, tem uma rigidez diferente do tecido vaginal do compartimento posterior, o que poderá explicar por que há mais prolapsos no compartimento anterior. Também demonstrámos que o tecido retirado de mulheres com prolapso era significativamente mais rígido do que o tecido são. Este dado é novo e foi já publicado numa revista internacional” [ver link em recursos]

Foto: Flickr/ilyoungko

 

Partilha


Comenta

“The influence of an occipito-posterior malposition on the biomechanical behavior of the pelvic floor”, European Journal of Obstetrics, Gynecology & Reproductive Biology

\"Prediction of nonlinear elastic behavior of vaginal tissue: experimental results and model formulation\", Computer Methods in Biomechanics and Biomedical Engineering

Consola de depuração Joomla

Sessão

Dados do perfil

Utilização de memória

Pedidos à Base de dados