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VIH: O vírus que invade as nossas
Artigo
Publicado em 29/11/2013 por Cláudia Azevedo e Renata Silva

Freddy Mercury e António Variações tiveram em comum mais do que uma carreira sonante no mundo da música. Eles também foram vítimas do VIH/SIDA, nas décadas de 1980 e 1990. Se fosse hoje, com os avanços registados nesta área, provavelmente não morreriam desta infeção. Até agora, porém, não foi possível encontrar nem uma cura nem uma vacina eficazes para lutar contra esta ameaça que afeta pessoas de todas as idades e géneros em todo o mundo.

O Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) é, como o próprio nome indica, um vírus e a SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) é o quadro causado pela relação deste vírus com o ser humano.

Descrito pela primeira vez nos EUA em 1982, o VIH/SIDA começou muito ligado a rótulos. Como se determinadas pessoas fossem embalagens, associou-se a doença sobretudo a indivíduos do sexo masculino e homossexuais. Nessa altura surgiu, em poucos meses, um número grande de doentes com problemas associados a imunodepressões muito graves como o sarcoma de Kaposi (tumor linfático) e com a pneumonia por Pneumocystis carinii. Antes de ser conhecida como SIDA, era apresentada como “gay cancer” (cancro homossexual) e identificada por GRID (“Gay Related Immuno Deficiency”).

Mais tarde, segundo explicou ao Ciência 2.0, Isabel Dias, docente e investigadora do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, percebeu-se que a doença não afetava apenas homossexuais ou homens. “Desde que esta infeção foi descoberta, foi representada como uma espécie de “doença do outro”, ou seja, o outro era personificado como um indivíduo do sexo masculino, homossexual e adulto”, concretiza, acrescentando que “era sentida pela sociedade envolvente como uma espécie de castigo por causa dos comportamentos sexuais mais libertinos”.

A “camuflagem inconsciente” da sociedade

“Numa primeira fase da infeção existia como que uma espécie de camuflagem inconsciente. Como sentíamos que era uma doença do outro, todos nós achávamos que, pelo facto de não pertencermos ao “outro”, estávamos protegidos. É uma ilusão”. Uma ilusão que pode ter levado a que, hoje, o segundo grupo com o maior número de registos de infeção com o VIH sejam as pessoas com uma relação heterossexual em contexto de conjugalidade duradoura, antecedido pela transmissão do vírus através de meios contaminados, relativos ao consumo de drogas por via intravenosa, sublinha a especialista.

Em Portugal o primeiro caso notificado remonta a 1983. Desde então foram registados em Portugal 37.540 casos de infeção por VIH. “Hoje a prevalência da doença no nosso país é na ordem dos 0,6 a 0,7 pessoas por cada mil habitantes”.

A SIDA tem uma longa história no que toca a rótulos, estigmatização, discriminação. E ainda continua a fazer correr tinta de jornais e de revistas e a ser alvo de investigação. Isabel Dias conduziu, em 2009, um estudo precisamente sobre os despedimentos de pessoas com VIH e que deu origem a um livro com o mesmo nome – “Diagnóstico da infeção VIH/SIDA: Representações e efeitos nas condições laborais”. A maioria dos inquiridos seropositivos não revelou o seu diagnóstico à empresa por receio de despedimento, conta a investigadora acerca das conclusões obtidas.

“Este assunto começou a despertar a atenção em 1990, muito por força do trabalho de algumas Organizações Não Governamentais, nomeadamente no Canadá, que começaram a chamar a atenção para o impacto do revelar do diagnóstico nas condições de trabalho dos indivíduos portadores de VIH”.

Para além de um maior foco de atenção no impacto social causado pela doença iniciado nos anos 90, foi também nessa altura em que a investigação científica avançou com uma demanda para uma cura para a doença e conseguiu criar medicamentos eficazes.

Prevenir e tratar

“O VIH tem uma afinidade especial para as células do sistema imunológico do hospedeiro. Ele infeta, vive e reproduz-se predominantemente dentro das células de defesa que o poderiam eliminar, os chamados linfócitos T CD4”, explica António Sarmento, médico infeciologista do Centro Hospitalar de São João.

O vírus tem uma especial preferência por células com estes recetores de membrana, os CD4, como acontece com os linfócitos T, mas também com outras células de defesa, como os macrófagos e células do sistema nervoso central. Destruir o VIH implicaria destruir também células de defesa muito importantes, pois promovem a resposta do organismo às agressões, não só infeciosas, mas de todo o tipo (por exemplo, tumores).

À medida que a doença vai progredindo, as defesas vão diminuindo porque o vírus vai inutilizando e matando as células de defesa. “É como se os bandidos e a polícia fossem a mesma entidade”, compara.

Embora falemos sempre do VIH, há dois tipos de vírus da imunodeficiência humana: o VIH-1, o mais frequente e que tem uma evolução mais rápida e o VIH-2 que está confinado a uma zona restrita de África correspondente à Guiné-Bissau. "Muitos soldados portugueses foram infetados durante a guerra colonial na Guiné e trouxeram o vírus para cá, embora a doença só se tenha manifestado anos depois, até porque a evolução é mais lenta. Por isso, Portugal é um dos países da Europa com maior número de casos de infeção por VIH-2", conta.

 

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