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Artigo
Publicado em 19/11/2013 por Cláudia Azevedo

A relação entre a próstata e sexualidade não tem sido isenta de equívocos. Há, de facto, muitas ideias erradas que associam esta glândula a funções que ela não tem. O urologista Nuno Tomada derruba alguns mitos.

Toque retal, sexo, prazer, cancro. Estas são palavras frequentemente associadas à próstata [ver glossário]. Mas, antes de nos debruçarmos sobre o assunto, convém saber onde está e para que serve.

“A próstata é uma glândula sexual situada entre a bexiga e a uretra. Tem o tamanho de uma castanha, mede 2 centímetros no sentido anteroposterior e 3 centímetros verticalmente e pesa cerca de 8 gramas na idade jovem”, explica Nuno Tomada, médico urologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

E, afinal, qual é a sua função? “As secreções desta glândula, em conjunto com a das vesículas seminais, são responsáveis pela maior parte do fluido seminal. Este é ligeiramente alcalino e é essencial para a motilidade, preservação e viabilidade dos espermatozoides no seu trajeto até ao colo do útero e à fecundação do óvulo”, continua o responsável pela Unidade de Medicina Sexual do Hospital de São João, no Porto.

Entre os constituintes destas secreções, há uma enzima que sobressai. De acordo com o especialista, “a próstata é responsável pela produção da enzima PSA, responsável pela liquefação do coágulo seminal. O ejaculado sai num coágulo e tem de ser liquefeito para que os espermatozoides tenham a motilidade necessária à fertilidade”.

Próstata e ereção com mecanismos distintos

Está visto que a próstata é condição sine qua non para que que um homem possa ter filhos, pelo menos biológicos. Mas isso não quer dizer que seja essencial para se ter uma sexualidade ativa.

“Os mitos que associam a próstata à ereção não são verdadeiros. A próstata tem um enorme papel na ejaculação, mas per se não tem influência no mecanismo da ereção”, desmistifica Nuno Tomada.

De facto, “a própria massagem prostática, apesar de imbuída de um mito erógeno, induz um mecanismo reflexo de micção que é inclusive um pouco incómodo para os nossos doentes”.

Há uma possível explicação para esta confusão: “Do ponto de vista fisiológico, muita da sensação orgástica deriva da sensação de ejaculação, que é feita pelas contrações simultâneas da próstata, vesículas seminais e músculos pélvicos, que fazem com que haja emissão do ejaculado. Há assim uma associação entre o orgasmo, a ejaculação e o funcionamento correto da próstata”.

Não obstante, “os mecanismos da ejaculação e da ereção são distintos. Enquanto a ejaculação é mediada pelo sistema nervoso autónomo simpático, a ereção é mediada pelo parassimpático”.

De modo inverso, há várias doenças da próstata que podem interferir na sexualidade e o próprio tratamento pode ter “um efeito deletério muito importante na função sexual do doente”.

Por exemplo, "os homens que sofram de prostatite, uma doença inflamatória da próstata, podem ter ejaculações dolorosas”.

A própria hiperplasia benigna da próstata (HBP), através dos sintomas do trato urinário baixo, está associada à disfunção sexual, que é independente da idade, outras comorbilidades e vários estilos de vida. Vários fármacos para o tratamento da HBP têm efeitos adversos na função ejaculatória, na função erétil e também na libido.

Doutor, quanta atividade sexual me prescreve?

Há, depois, informação muito contraditória e, muitas vezes, sem a mínima base científica a circular no que respeita à quantidade ideal de sexo para proteger a próstata de possíveis doenças.

Por isso, o urologista avisa: “Não sabemos dizer ao doente exatamente qual é a frequência ideal de atividade sexual ou de ejaculações, mas sabemos que o homem, ao ejacular, está a promover um bom funcionamento da próstata. Se não for em exagero, a ejaculação, teoricamente, promove o bem-estar prostático. Não ter uma atividade sexual regular com ejaculação pode até agravar doenças prostáticas. Daí que aconselhamos às pessoas com hiperplasia benigna da próstata ou mesmo prostatites a não restringirem a sua atividade sexual”.

Assim, os conselhos para manter uma próstata saudável passam pela “manutenção de uma atividade física regular, dieta equilibrada com restrição calórica, gordura animal e carnes vermelhas, uma vez que a síndrome metabólica está associada à hiperplasia benigna da próstata”.

Mas atenção: “Não são ainda consensuais os aconselhamentos para prevenção do cancro da próstata”.

A enzima PSA e o seu valor diagnóstico

A propósito deste tumor, a PSA não é só responsável por liquefazer o esperma, mas também é usada como marcador de cancro da próstata, um dos mais frequentes no homem.

Com o advento deste marcador, sucederam-se as campanhas de informação aconselhando os homens a partir dos 45/50 anos a consultarem o urologista e a fazer o doseamento sérico da PSA como modo de deteção precoce de cancro da próstata.

No entanto, o valor preditivo de carcinoma da próstata do PSA não é tão robusto como se julgava.

“Cada vez dependemos menos desse marcador. Ele sobe quando há HBP, prostatite, ou por exemplo se há prática de relações sexuais nas 24/48 horas antes de colher o sangue. Há muitas situações que fazem aumentar a PSA e isso limita muito a sua aplicabilidade como marcador tumoral específico. A investigação tem procurado novos marcadores da doença. Neste momento, temos o PCA3, mas continuamos à procura de marcadores mais fiáveis”, revela.

Com efeito, “apesar de só em estádios muito avançados o cancro da próstata se associar a disfunção sexual, o seu tratamento tem uma forte influência na esfera sexual. Embora por mecanismos não necessariamente coincidentes, a prostatectomia radical (remoção completa da próstata), a radioterapia externa ou braquiterapia, a hormonoterapia ou outros métodos de tratamento podem ser responsáveis por disfunção sexual permanente”.

Contudo, a prostatectomia radical não é sinónimo de fim da vida sexual. “Os doentes mantêm o prazer orgástico, e existem terapêuticas eficazes para recuperar a função erétil, incluindo em último caso a implantação de uma prótese peniana”, conclui.

 

Glossário:

Próstata - A próstata é uma glândula sexual acessória cuja secreção, em conjunto com a das vesículas seminais, forma a maior parte do fluido seminal. A secreção prostática é ligeiramente ácida, sendo um dos seus constituintes a enzima PSA, responsável por liquefazer o esperma.

Possui um formato piramidal (de base superior e ápice inferior) que rodeia a uretra prostática, desde o colo vesical até ao diafragma urogenital. Localiza-se na pelve menor, anteriormente à ampola retal e posteriormente ao púbis, medindo 2 cm no sentido anteroposterior e 3 cm verticalmente e pesando cerca de 8 g na idade jovem.

Apresenta uma parte anterior praticamente desprovida de glândulas, sendo composta por tecido fibromuscular. O tecido glandular encontra-se subdividido em 3 zonas: periférica (70%), central (25%) e de transição (5%). A zona periférica (parte posteroinferior da próstata) é o local de origem da maioria dos carcinomas prostáticos, enquanto que a HBP ocorre na zona de transição (a parte mais interna da glândula que circunda a uretra).

 Foto: Flickr/dave77459

 

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