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Artigo
Publicado em 22/1/2013 por Renata Silva e Maria José Quintas*

Quando viu morcegos pela primeira vez deixou-se fascinar. A partir daí, num percurso que começou com uma licenciatura em Biologia, Hugo Rebelo nunca mais parou de trabalhar e investigar estes mamíferos. A trabalhar no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO/UP) desde 2005, o investigador de 37 anos explica ao Ciência 2.0 o que o motiva e o deslumbra e sobre o que tem recentemente descoberto acerca das várias espécies destes animais.

O seu nome aparece sempre indissociável de todo um universo acerca dos morcegos e dos ultrassons que emitem. Pode explicar-nos um pouco sobre os objetivos e o âmbito do trabalho que realiza? 

Os grandes objetivos do meu trabalho têm a ver com a conservação, biologia da conservação/conservação da natureza, etc. Utilizo uma série de metodologias, estatísticas espaciais, algo que tenha aplicabilidade no terreno, utilizando as ferramentas genéticas, também para tentar aferir as estruturas das populações, de diferentes espécies de morcegos aqui em Portugal e na Península Ibérica e, tudo isto, sempre com a ótica dos resultados terem uma utilidade prática para o desenvolvimento de medidas e políticas de conservação e que tenha um impacto positivo nas populações dos morcegos. Tenho trabalhado com mais animais para além do morcego, mas os morcegos têm sido um desafio particular na minha carreira, porque são um grupo sobre o qual, em Portugal, há um desconhecimento muito elevado. Cerca de 40 % dos vertebrados terrestres ameaçados em Portugal são morcegos. Portanto, temos esta dicotomia – um grupo extremamente ameaçado e com um elevado grau de desconhecimento. E foi isso que acabou por me atrair.

Em que consiste especificamente o trabalho que realiza?

O trabalho que realizamos à noite começa por, ou por experiência própria ou sensibilidade, escolher um sítio onde montar redes. Estas redes são semelhantes àquelas com que se apanham pássaros ou aves. Montamos redes em locais que achamos ser bons para os morcegos caçarem. Essas redes estão abertas durante a noite e, se tivermos sorte, os morcegos caem nelas. Aquando da sua queda, o indivíduo é processado com uma série de medições, relacionadas com a morfologia do seu aspeto exterior, comprimento de braço, tamanho da orelha, peso, etc. Tiramos análises também para amostras genéticas e, numa última etapa, colamos um tubo quimiluminescente, que é muito utilizado na pesca que, quando se quebra, provoca uma reação química, emitindo um brilho fluorescente, verde ou amarelo. Nós colamos esse tubo na barriga do bicho com cola de pestanas, ou seja, algo completamente inócuo, e libertamos os morcegos. Dessa forma sabemos que, durante a noite, por exemplo a cor verde corresponde à espécie “X”. Quando vemos um brilho verde, gravamos os ultrassons que emitem e já sabemos a que espécie pertence. Fazemos assim durante a noite e é isso que nos permite recolher dados para a posteriori fazer a sua caraterização.

Trabalhar com morcegos é um "desafio"

O que o alicia no trabalho da captura, recolha de material genético e cruzamento de dados entre populações?

Isto é bastante pessoal, mas gosto bastante deste desafio, isto é, do facto dos morcegos serem espécies desconhecidas. A isto podemos aliar a ocupação que fazem de um tipo de abrigos de difícil deteção, como são o caso das grutas ou minas, que trazem desafios particulares. Eles também andam à noite e portanto a detetabilidade é baixa. O que mais me aliciou foi a questão  metodológica de trabalho com este grupo faunístico e a missão de tentar,  apesar de saber pouco, dar alguma contribuição e conseguir avançar em termos de conservação.

Trabalha na área da bioacústica. Pode explicar-nos a importância de estudar os ultrassons que são emitidos pelos morcegos e o que é que eles nos “dizem” sobre cada espécie?

A relação é total. Graças ao estudo dos ultrassons [ver recursos] é que é possível estudar os morcegos. Como já referi, os morcegos voam à noite depressa e são difíceis de apanhar. Devido à evolução tecnológica a partir dos anos 90, tornou-se mais ou menos acessível comprar detetores de ultrassons [ver recursos] Este instrumento é um microfone, sensível a ultrassons e depois tem um sistema eletrónico que converte um ultrassom, num som audível, que a posteriori podemos analisar no computador e extrair uma série de informação através dos parâmetros dos sons. Cada espécie distingue-se por variadas vocalizações caraterísticas, não digo únicas, mas com um reportório mais ou menos típico. O som é de extrema importância para os morcegos, dado que é o principal sentido para eles percecionarem e interpretarem o que os rodeia. Do mesmo modo que, para nós seres humanos a visão é o mais importante, para eles é o som. Estes mamíferos percecionam o meio, mandando “berros” ultrassónicos e através do eco que esses sons produzem, caso encontrem um obstáculo, conseguem “ler” no eco uma informação bastante importante e semelhante àquela que nós conseguimos ler do ambiente através dos olhos, nomeadamente, a localização dos obstáculos, objetos, texturas, profundidade. Eles têm informação 3D do som. Portanto têm um sistema bastante eficaz. Não é semelhante a um radar, porque este emite radiação eletromagnética, mas é semelhante a um sonar o seu funcionamento. [ver recursos] Graças a essas vocalizações e ao desenvolvimento tecnológico tornou-se de repente possível andar no campo com detetores de ultrassons e embora eu às vezes não veja os indivíduos, estou a ouvi-los e isso permite obter a informação acerca de se determinada zona é mais importante para os morcegos ou se há maior ou menor diversidade de espécies e se estão a caçar e também nos permite obter uma informação no que toca a comportamentos sociais, se há interações entre indivíduos.

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Qual a diferença entre um som e um ultrassom?

Em que consiste e qual a aplicabilidade da bioacústica?

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Morcego-negro, uma das espécies investigadas por Hugo Rebelo

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