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© Flickr/moonauto
Artigo
Publicado em 20/11/2012 por Luís Ceríaco*

Na segunda mezinha publicada por Luís Ceríaco, biólogo doutorando em História e Filosofia das Ciências, o autor explica-nos a história, as verdades e os mitos por detrás da "banha da cobra".

Da grande variedade de mezinhas e produtos etnofarmacêuticos que povoam a medicina popular em Portugal, poucas serão tão famosas como a "banha da cobra". A expressão é antiga e refere-se a várias receitas baseadas em partes do corpo de serpentes e utilizada para tratar diversas maleitas. No entanto, nos dias de hoje, e como é situação comum para a boa parte dos conhecimentos originários do conhecimento popular, a expressão é habitualmente utilizada de maneira depreciativa, como metáfora para um produto de má qualidade e de resultados duvidosos, sendo mesmo a personagem do "vendedor de banha da cobra" utilizado no discurso público para identificar alguém mentiroso e de falso caráter. Para além de imagem metafórica, a banha da cobra trata-se de facto de um tratamento da medicina popular portuguesa ainda hoje referido e aplicado em zonas mais remotas do país.

Uma das "regras de ouro" da medicina tradicional em quase todo o mundo e que se aplica ao uso de partes animais para o tratamento de doenças é o de que quão mais assustador ou perigoso for o animal, maiores serão as suas aplicações e eficácia no tratamento das maleitas. Esta regra não é única e exclusiva, mas no entanto retrata bem o caso das serpentes. A aplicação direta de gordura extraída de serpentes em cima de feridas para as curar, a utilização da mesma diretamente sobre áreas afetadas por herpes, zonas de dor reumática ou qualquer outro tipo de dor, ou mesmo a ingestão de uma mistura de gordura de cobra com azeite de modo a combater episódios febris, são exemplos de algumas aplicações diretas da "banha da cobra" ainda hoje referidas na farmacopeia popular portuguesa. Para além da gordura, existem ainda outras mezinhas que utilizam produtos originários do animal. É o caso do uso do pó derivado da trituração da pele de cobra misturada com azeite para a aplicação sobre feridas e dores de dentes ou a aplicação apenas do pó diretamente sobre queimaduras, dos chás de pele de cobra contra a tosse, das sopas de cobra contra o reumatismo e contra os furúnculos, etc. É importante notar que muitas destas mezinhas se encontram também elas presentes em várias farmacopeias portuguesas do século XVIII, denunciando um uso continuado há mais de três séculos. O uso da banha da cobra não é exclusiva de Portugal, nem mesmo da Europa. Do Brasil a Angola são várias as aplicações terapêuticas utilizadas pelos povos locais para o tratamento de várias doenças, algumas das quais de forma idêntica aos usos europeus. Embora existam várias receitas exclusivas, muitas outras indicam a possibilidade de transferência de informações entre povos e culturas. É comum em Angola encontrar grandes jiboias a serem vendidas em mercados locais em que a carne é usada para a alimentação, a gordura para aplicações terapêuticas contra as dores reumáticas (tal em qual em Portugal), e os olhos utilizados para sopas e rituais mágicos (exclusivo de Angola).

Não se pense porém que a utilização de partes de serpentes para práticas de magia e superstição não existam em Portugal. Na farmacopeia Medicina Lusitana, de 1731, referia-se que a utilização de cabeças de cobra como amuletos junto às cabeceiras afugentaria as bruxas e os maus espíritos, e na Pharmacopeia Tubalense, de 1735, referia-se que o uso específico da cabeça de uma cascavél (espécie inexistente em Portugal) pendurada ao pescoço preveniria ataques epilépticos. Embora raro, ainda hoje em Portugal se pode encontrar quem acredite em semelhantes poderes mágicos e protetores da cabeças de serpente, visto que há ainda quem considere que o uso de uma cabeça de serpente seca ao pescoço pode de facto prevenir a tuberculose. Mais grave ainda é o uso de cabeças de víbora como amuleto de boa sorte, infelizmente ainda bastante comum no norte do país e com consequências bastante nefastas para as populações destes animais.

Não existem quaisquer evidências científicas de que qualquer um dos compostos presentes na gordura ou corpo das serpentes tenha efeitos farmacológicos, contrariamente ao veneno presente em algumas espécies e já hoje utilizado em vários medicamentos. É portanto desaconselhável a utilização deste tipo de tratamentos. Para além da questão da saúde, é importante constatar que todas as espécies de serpentes em Portugal se encontram protegidas por lei, o que torna a sua captura e consequente morte ilegal, por óbvios motivos de conservação.

*Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência

Foto: Flickr/moonauto 

 

 

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