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© Flickr/Gabriel R F
Artigo
Publicado em 31/10/2012 por Luís Ceríaco*

Uma curiosidade aguçada leva-nos a descobrir e a perceber a história e a ciência por detrás das mezinhas que os nossos pais e avós nos aplicavam e recomendavam em pequenos. 

Por isso, o Ciência 2.0 inicia agora com a colaboração de Luís Ceríaco, biólogo e doutorando em História e Filosofia das Ciências, uma rubrica bimestral que pretende dar a conhecer a real eficácia destas mezinhas, a sua origem e mesmo as possíveis consequências positivas e/ou negativas que têm para a nossa saúde. 

A primeira mezinha refere-se às picadas das abelhas e à colocação de moedas de cobre para aliviar a dor, que o especialista passa a explicar: 

 

Serão raros os sortudos que nunca tiveram um contacto mais infeliz com um abelha ou uma vespa. Embora com um aspeto e comportamento semelhante, estes dois animais da ordem Hymenoptera (onde se incluem também as formigas), apresentam venenos diferentes. Enquanto o veneno das abelhas, a apitoxina, é um veneno de natureza ácida, o veneno das vespas apresenta-se como uma substância de pH neutro. No entanto, ambos os venenos têm uma forma semelhante de atuar no organismo. Para além de serem ambos anticoagulantes, fazendo com que a ferida não sare tão facilmente como no caso da picada de outros animais, introduzem um conjunto de proteínas e toxinas no organismo que destroem células e tecidos e que, no caso dessas células serem terminações nervosas, provocam uma resposta de dor. A destruição das células faz com que o veneno se espalhe na área picada, provocando a inflamação de toda a área circundante. Recorrendo à farmacopeia popular portuguesa encontramos algumas sugestões que, assegura o povo, resolvem a situação, sendo elas o uso de uma moeda de cobre sobre a picada, que supostamente acalmará a dor e extrairá o veneno. Colocar um objeto metálico, como uma faca sobre a picada, aplicar uma lama resultante da mistura de terra humedecida com urina humana, ou ainda a aplicação de sumo de uva branca sobre a picada, são outras das soluções presentes na nossa tradição oral.

Embora em termos científicos nenhuma destas técnicas possa de facto atuar de forma a anular as consequências bioquímicas e celulares que o veneno tem em contacto com os tecidos e células do nosso corpo, a aplicação de qualquer objeto frio pode, na medida do possível, aliviar a dor. No entanto, e tendo em conta os nossos atuais conhecimentos sobre microbiologia e higiene, é de todo desaconselhável a colocação de objetos que, pela sua natureza e uso estejam habitualmente "infestados" por inúmeras colónias bacterianas, como o caso de moedas, facas ou terra. Embora o alívio resultante da natureza fria destes objetos, o afligido arrisca-se a estar a contaminar o local da picada com mais agentes patogénicos que só piorarão a situação.

A aplicação de gelo, água fresca, ou mesmo o próprio sumo de uva, serão certamente preferíveis a estes, e embora não solucionem a totalidade do problema, são pelos menos mais higiénicos e evitam a infeção da ferida. Será, no entanto, interessante explorarmos a raiz do uso da moeda de cobre para "retirar" o veneno da picada e tratar da ferida. A utilização de objetos para a extração de venenos é bastante comum na nossa farmacopeia antiga. Muito comuns no século XVI, XVII e XVIII, as pedras "Bezoars", pedras com supostas aplicações medicinais que seriam encontradas no interior de alguns animais, eram bastante procuradas na Europa para uso médico e de antídoto. Raras, e por isso só disponíveis para as classes mais abastadas da sociedade, eram elas muitas vezes referidas nas farmacopeias oficiais da altura e patenteadas em Museus e Gabinetes de História Natural e de Medicina.

Embora inacessíveis à maioria da população, existiriam alternativas semelhantes para a extração de venenos de animais ditos peçonhentos. São comuns os relatos no século XVIII em Portugal da existência e uso das chamadas "pedras de cobra" para o tratamento de picadas de serpentes. Esse uso ter-se-á mantido até aos dias de hoje, sendo ainda comum em determinadas zonas do norte de Portugal. A aplicação da "pedra da cobra", uma pedra praticamente vulgar, muitas das vezes apontada como de forma semelhante à de uma moeda, é em tudo semelhante aquela da moeda de cobre para o caso da picada de abelhas: a pedra colocar-se-ia em cima da picada e rapidamente extrairia o veneno e acalmaria a dor. No fim do processo a pedra conteria em si todo o veneno e a pessoa estaria curada. Tal como o caso da moeda de cobre, a "pedra de cobra" não apresenta em si qualquer fundamento científico, sendo higienicamente pouco recomendada, bem como certamente ineficiente. No entanto, não deixa de ser interessante reparar que a aplicação é em tudo semelhante e que, a "moeda de cobre" e a "pedra da cobra" se assemelham bastante em termos fonéticos (cobre/cobra), o que parecendo uma comparação demasiado simplista, em termos etnográficos pode muito bem representar uma derivação direta uma da outra.

                                  * Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência

Foto: Flickr/Gabriel  R F

 

Este artigo deu origem a uma pergunta no quiz de ciência LabQuiz, um divertido jogo desenvolvido pelo Ciência 2.0 para Android e iOS.
Disponível na Google Play:
https://play.google.com/store/apps/details?id=air.ciencia20.up.pt.quiz

Disponível no iTunes:

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Foto: flickr/msp_stgo

Moedas de cobre: uma das "soluções" para as picadas de abelha

Foto: flickr/lachicadelfagot

O sumo de uva branca é uma outra alternativa, esta mais higiénica

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