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Manuel Valente Alves
Artigo
Publicado em 3/2/2014 por Cláudia Azevedo

Manuel Valente Alves é artista, médico de família na USF Sofia Abecassis, docente de História da Medicina e diretor do Museu de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa. Recentemente escreveu o livro "Anatomia. Arte e Ciência", juntamente com João Lobo Antunes.

Quando sentiu que tinha vocação para ser médico?

Nunca tive uma vocação por uma área em especial, sempre me interessei por muitas coisas. Mas o que mais me tem motivado é o Homem, o estudo da natureza humana. Tenho uma curiosidade imensa pela natureza humana, pelas questões ligadas à cultura, à maneira como o homem transforma a natureza do mundo. É mais isso que me interessa na vida do que a ideia de ter uma profissão certa ou de seguir uma determinada carreira profissional em exclusividade. Agrada-me a ideia da deriva, da procura incessante do bom e do belo. Também preciso de viver num ambiente de justiça, fiel aos princípios da polis grega.

A Medicina era a que mais se aproximava do ser humano?

Sim, da essência do humano. A Medicina tem essa dimensão: conjuga a arte e a ciência para um conhecimento global do Homem.

O exercício da Medicina é essencial para mim porque ele me permite estar em permanente contacto com o humano nas suas múltiplas dimensões. A Medicina é um observatório do mundo.Quando nós contactamos com alguém que sofre, estamos a entrar na rede do mundo biológico, antropológico, cultural, nas ligações que a pessoa estabelece com os diversos mundos e que, muitas vezes, estão curto-circuitadas pela doença.

O Homem doente não é diferente do Homem não doente, ele é apenas mais humano, mais consciente da sua própria fragilidade porque se encontra mais próximo da morte. Todos os seres são finitos, mas o Homem é o único que sabe que morre, talvez seja essa a sua dignidade, como refere Pascal. A morte está presente em tudo, nas células do nosso corpo que permanentemente se renovam – morrem umas, nascem outras -; a morte faz parte intrínseca da nossa identidade natural. É por isso que a morte nos torna verdadeiramente humanos.

Mas a tecnologia também nos torna humanos. Através dela tomamos consciência do poder da mente, do espírito. Por causa da tecnologia, o Homem hoje tem a capacidade de se regenerar, de regenerar órgãos, células de corpo, de mudar um pouco o curso da natureza, de se aproximar um pouco mais da ideia de Deus, do infinito. Apenas isso e não mais.

“Arte e a ciência estão condenadas a trabalhar juntas”

Ciência e arte são complementares?

Penso que sim. Desde que se separaram, no século XVIII, a ciência e a arte tomaram rumos muito diferentes. A divisão foi natural e permitiu a especialização de ambos os campos. A arte assumiu a subjetividade como o seu território preferencial e a ciência a objetividade.

Agora estamos numa fase em que arte e ciência convergem novamente. Conseguimos articular e conjugar mais facilmente vários saberes a partir das ferramentas que temos. A perceção da complexidade que hoje temos em relação aos mais diversos fenómenos obriga a um pensamento mais global.

A arte e a ciência estão condenadas a trabalhar juntas. Elas combinam-se em várias áreas, como na arquitetura e no urbanismo. Os grandes edifícios de cidades como Nova Iorque, por exemplo, são, ao mesmo tempo, obras de arte, que se baseiam na subjetividade dos seus criadores, e objetos tecnológicos baseados em conhecimentos científicos.

A Medicina também tem arte?

A arte e a ciência estão também presentes na medicina, sobretudo na clínica, em especialidades generalistas como a Medicina Geral e Familiar e na Medicina Interna, mas também noutras. A arte existe na relação médico-doente, quando o médico se confronta com a subjetividade do doente, com as suas narrativas, o modo como ele lê o seu próprio corpo; o médico interpreta essa interpretação, de um modo não muito diferente da interpretação de um livro; o discernimento clínico é uma espécie de meta-narrativa, que se aproxima do diálogo literário, da compreensão das artes.

A partir daí surgem hipóteses de diagnóstico que são ou não confirmadas por exames, por dados que podemos quantificar – medir e pesar. A ciência médica tornou a prática da medicina mais segura, mais rigorosa, mais fiável, sem dúvida. Mas não podemos estar obcecados em seguir padrões extremamente rígidos do ponto de vista científico. Os valores de referência têm de ser permanentemente ajustados à pessoa em concreto, à singularidade individual.

O que mais gosta de fazer como Diretor do Museu de Medicina? Tem algum objeto preferido?

Fundamentalmente gosto de organizar exposições, de cuidar e divulgar o património histórico, mas também de criar novas ligações, novos sentidos, de abrir as portas ao imaginário. De mostrar a cultura médica à sociedade, na sua beleza e complexidade. Porque ela não se limita ao diagnóstico, prognóstico e tratamento, ela é sobretudo um pensamento e uma prática sobre o Homem, que lhe permite viver melhor. Os objetos dos Museus de Medicina, património da Humanidade, refletem essa cultura e devem mostrá-la o mais eficazmente possível. Alguns desses objetos têm uma beleza intrínseca. Os microscópios, por exemplo, são em geral, muito bonitos: são peças de design e, ao mesmo, tempo, objetos através dos quais se faz investigação. São peças maravilhosas que nos abrem as portas ao infinitamente pequeno, ao interior das células, dos átomos. São próteses do olho humano, tal como os telescópios, através das quais entramos em mundos que não sabemos onde vão parar. Hoje, as possibilidades de visão são enormes. Quando olhamos para o universo e para o nosso corpo, através destas e de outras próteses,confrontamo-nos com a ideia de infinito.

“O meu trabalho é uma espécie de atualização da História”

Quando surgiu o seu gosto pela arte? Foi antes ou depois da Medicina?

Surgiu em simultâneo. Não posso dissociar o desejo de conhecer o ser humano e de com esse conhecimento fazer arte. Para mim, as obras de arte em si mesmo, como objetos, têm um interesse relativo. Interessa-me muito mais a relação das obras de arte com os seus criadores, os artistas, e com o público, a sociedade. Como é que a obra de arte, sendo um mundo, reflete outros mundos, incluindo os que estão na sua génese.

Como artista, qual tem sido o seu percurso?

Comecei a desenvolver trabalho artístico antes de entrar para Medicina e a expor a partir de 1984. Inicialmente, dediquei-me à pintura, decidi pensar a pintura enquanto objeto e ícone da história da arte. Na década de 90, o meu trabalho foi-se centrando na fotografia e no vídeo, a imagem em movimento. Atualmente, o trabalho que desenvolvo gira à volta da edição videográfica e fotográfica, mas também do desenho enquanto instrumento de reflexão e da internet. Por isso gosto muito de criar instalações onde combino diferentes materiais e suportes artísticos. Há mais de vinte anos que na minha atividade expositiva privilegio as instalações site specifics que combinam diversos suportes, ambientes e ideias.

Nas últimas décadas, o meu trabalho artístico combina a história, a memória individual e coletiva, e a filosofia. Puxo o passado para o presente e reinvento-o. A minha última grande exposição, na Casa da Cerca, foi uma instalação em torno de duas figuras fundadoras da Europa: Cadmo e Harmonia. A partir de um princípio fundador, neste caso a Grécia Antiga, vou tecendo analogias, ligando o passando e o presente para construir uma ideia de futuro.

Nunca quis que, do ponto de vista plástico, o meu trabalho tivesse conotações diretas com a medicina. Há artistas que trabalham diretamente sobre essa realidade. Mas eu sempre rejeitei essa via, sempre tive a preocupação de preservar a intimidade do espaço clínico. Contudo, as ligações entre medicina e arte, não sendo óbvias, acabam por também estar presentes no meu trabalho plástico, de um modo indireto.

O que está a fazer atualmente?

Além da minha atividade clínica diária eu estou sempre a trabalhar em múltiplos projetos, pessoais ou institucionais. Transporto sempre comigo um caderno de apontamentos e uma pequena máquina fotográfica e de filmar. Estou permanentemente a pensar, a registar dados e a organiza-los discursivamente.

Provavelmente ainda este ano haverá uma exposição comissariada por mim sobre o conceito filosófico de paisagem, no âmbito da Universidade de Lisboa. Quando comissario uma exposição, estou não apenas a dispor objetos segundo um determinado conceito, mas a criar, a imaginar relações entre eles, a inventar espaços. Gosto de ver como é que objetos aparentemente distintos e separados por centenas de anos comunicam entre si, ou como é que nós comunicamos com eles. Gosto de colocar lado a lado ou frente a frente peças que aparentemente nada têm nada a ver uma com a outra, como uma pintura de Vieira da Silva e outra de António Carneiro, ou um microscópio e uma pintura de Poussin.

Os objetos de arte não têm uma interpretação unívoca e por isso o seu potencial de comunicação é imenso; depende do modo como nos aproximamos deles. Todas as aproximações são lícitas desde que criem novos sentidos.

“Vamos ter nos adaptar a contextos mais globais”

Num exercício de futurologia, como serão a ciência e a arte em Portugal e no mundo?

Temos muito boa ciência em Portugal. E o panorama artístico também é muito bom. Acho que quando falamos de arte e ciência em Portugal o discurso é muito fechado, provinciano. Falamos muito do nosso jardim, do nosso cantinho, em oposição ao do vizinho do lado. A ciência sempre foi e será cada vez mais global. A ideia de circunscrever a ciência a lugar, a um território nacional ou regional, parece-me despropositada. É muito difícil que qualquer descoberta ou invenção possa hoje em dia ser reivindicada por um país ou região do mundo, por mais desenvolvida que seja.O mesmo se passa com a arte. Os artistas em Portugal são diferentes uns dos outros, como é natural. Mas não se pode falar hoje em dia de uma arte portuguesa, assim como não se pode falar de uma ciência portuguesa. Acredito que, no futuro, arte e ciência serão cada vez mais cosmopolitas, partilharão ideias, espaços e poéticas para tornar o mundo mais rico e sustentável. Vamos ter nos adaptar a contextos cada vez menos locais e mais globais e nos articular local e globalmente, individual e coletivamente, em comunidades cada vez mais vastas e complexas do ponto de vista identitário.

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© 2012 Manuel Valente Alves

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